A Usina de Itaipu, localizada na fronteira entre Brasil e Paraguai, está passando por um momento crítico, com a abertura de seu vertedouro, liberando um volume de água quase nove vezes maior que a média das Cataratas do Iguaçu. Esse cenário, no entanto, não é o único motivo de preocupação para os brasileiros. A recente parceria entre uma empresa americana e uma paraguaia para utilizar a energia da usina para projetos de inteligência artificial levanta questões sobre a disponibilidade de eletricidade para o Brasil nos próximos anos.
Especialistas em energia alertam que o Paraguai vem aumentando o consumo da energia que lhe pertence na hidrelétrica. Historicamente, o país utilizava apenas uma fração da eletricidade que tinha direito, enviando o restante para o Brasil. Contudo, a situação mudou: atualmente, o Paraguai consome cerca de 74% da sua quota, o que pode impactar a quantidade de energia que sobra para o mercado brasileiro.
A parceria anunciada envolve a empresa americana Crusoe e a desenvolvedora paraguaia Araico, que planeja utilizar a energia de Itaipu para abastecer uma estrutura de computação em nuvem no Paraguai, com início das operações previsto para 2027. A falta de envolvimento direto do Brasil nas negociações gera incertezas, já que as decisões sobre a utilização da energia seguem as normas estabelecidas pelo Tratado de Itaipu.
Victorio Oxilia, doutor em Energia e professor na Universidade Nacional de Assunção, ressalta que a redução da energia disponível para o Brasil é uma tendência já em andamento, e pode se intensificar com a chegada de novos consumidores. “É difícil que a energia suma totalmente, mas a diminuição será significativa”, afirma.
Tomaz Espósito, professor de Relações Internacionais da UFGD, complementa que a situação pode tornar as negociações entre Brasil e Paraguai mais complexas. “Com novos consumidores, as regras do Anexo C do Tratado de Itaipu se complicam, resultando em uma possível diminuição da oferta de energia ao Brasil”, explica.
Apesar das preocupações com a redução da energia, especialistas não veem risco imediato de desabastecimento no Brasil. Oxilia destaca que o país conta com um sistema elétrico diversificado, capaz de mitigar os impactos dessa mudança. Espósito, no entanto, alerta para a importância da energia de Itaipu no abastecimento do Centro-Sul brasileiro, enfatizando que, mesmo com superávit, a diminuição da energia da usina é uma questão a ser monitorada.
O acordo entre os Estados Unidos e o Paraguai vai além da energia, incluindo investimentos em tecnologia, infraestrutura e segurança. A aproximação entre os dois países pode fortalecer ainda mais a autonomia paraguaia em relação à energia gerada pela Itaipu, um tema que merece atenção redobrada nos próximos anos para a população brasileira.



